Actualidade e lugares
Domingo, 29 de Abril de 2018
Sobre o Seminário Monfortino

Ontem foi um dia especial. Regressei ao Seminário Monfortino, de onde tinha saído há mais de 35 anos.
Reencontrei caras conhecidas e outras desconhecidas.
Foi bom encontrar os conhecidos de há muitos anos, mas terá sido ainda melhor 'reencontrar' aqueles que nem sequer conhecia.
Uma coisa é encontrar algumas das caras dos que com quem partilhamos um período importante da nossa vida, outra coisa, e não menos intenso, é encontrar caras desconhecidas dos que com quem nos sentimos irmanados apenas por sabermos que vivemos na mesma comunidade.
O Padre Vieira chamou a isso a espiritualidade monfortina, eu aceito o termo mas prefiro interpreta-lo pela vertente da partilha de uma identidade.
Lembrando o período em que fui seminarista monfortino, não tenho qualquer dúvida reconhecer a sorte que tive em ter pertencido a esta comunidade.
Fui atraído pelo facto de o meu irmão ter sido seminarista monfortino antes de mim, o que me levava ao seminário nas festas de natal e de fim de ano. Os eventos que eram apresentados aos familiares sempre me encheram as medidas.
Lembro-me de, do alto dos meus dez anos, querer pertencer a uma coisa assim. Pode-se dizer que foi quase como ter ido para a tropa com essa idade. Nessa altura da vida estar longe dos pais, ter de digerir rotinas rígidas, conhecer e conquistar um espaço entre desconhecidos, levar com sotaques de todo o país ao ponto de incorporar alguns como seus e até chegar ao ponto da tal partilha de um sentimento de pertença com mais de cem estudantes e mais de uma dezena de responsáveis e viver isso durante cinco anos… não se pode negar que tenhamos sido marcados por isso.
Não duvido que uma parte daquilo que sou, e somos, resulta da nossa passagem pelo Seminário Monfortino de Fátima.
Todos temos histórias na primeira pessoa dos saudosos Irmão Ricardo, Padre Leonardo, Padre Marcos, Padre João, Padre Sousa, Padre Luis Martinho e Padre Rogério. E também da Dona Maria da cozinha, do Tó Segura, das aulas de flauta, dos trabalhos exteriores, da biblioteca, da distribuição de roupa, de passar o chão a pano, dos ensaios de canto na Capela, das idas pontuais à enfermaria, do Padre Sousa ir 'dar à manivela' quando faltava a luz, do carocha do Irmão Ricardo, de lavar a loiça na copa ao fim de semana, de chamar toda a gente pelo sino (fui sineiro um ano ou mais), dos ensaios de teatro antes do Natal, de escorregar de joelhos no claustro em frente à capela, das competições de matraquilhos, sueca e quatro em linha e de arrancar o verniz velho das salas de aula com os esfregões debaixo do pé antes das férias grandes. Lembro-me também de ter ouvido pela primeira vez Dire Straits num leitor de cassetes na sala de jogos na Academia, da segunda-feira desportiva, que não era mais que o Domingo Desportivo diferido em VHS.
Lembro-me também de um companheiro ter assumido a autoria de barulhos nocturnos para poupar um outro colega. Não me lembro bem do detalhe, mas recordo que o efectivo prevaricador tinha já acumulado várias faltas e alguém (eu sei quem foi), sob pressão, entendeu que devia sacrificar-se pelo companheiro… podemos andar por lá anos mas há lições dadas pelo exemplo que aprendemos em segundos.
Já assumi a sorte de ter pertencido a esta comunidade, mas reforço ainda o facto de que, sem que disso tivéssemos consciência, termos vivido e crescido num espaço embrionário do que viria a ser o espaço europeu. Os meus colegas da primária ainda andavam na telescola e nós já ouvíamos pérolas do calibre do popular 'godverdomme' do vernáculo holandês.
Fomos uns sortudos. Há uma certa ideia de civilização que, mais ou menos próxima da mensagem religiosa, talvez conservadora nos costumes e liberal na acção de que todos partilhamos. Corrijam-me se discordam.
Um abraço a todos a até ao próximo encontro.



publicado por Paulo Sousa às 14:00
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Obrigado Laura,Apenas aqui poderia ter chegado pel...
magnífico texto.Cheguei aqui através do "Delito".
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