Actualidade e lugares

Domingo, 27 de Junho de 2010
Futebol, a metadona do povo

Arredando (e arreliado por isso) há algumas semanas da blogosfera, foram vários os assuntos sobre os quais tive vontade de postar e que por falta de sitio não o fiz. As reflexões pessoais que os referidos assuntos suscitaram perderam o futuro que o registo escrito lhes garante.

Estando o Mundial 2010 em curso foram várias as metáforas em que já tropecei e que aqui gostava de registar.

Uma delas foi a forma com todos lidamos com este circus romano da actualidade que entretém e anestesia milhões de pessoas pelo mundo inteiro. No caso português (também no espanhol…) o Mundial funciona como a metadona. Não resolve, não compromete, mas alivia.

Fiz um comentário há dias no Albergue Espanhol sobre a metadona futebolística, que aqui passo a reproduzir.

 

"O dealer para ganhar a confiança do seu protegido teve apenas que dizer umas frases bonitas sobre um prazer infinito e duradouro. As primeiras experiências correram bem, muito bem. Durante essas experiências o dealer mostrou ao futuro junkie que na sua companhia no futuro poderia ser muito feliz, teria dinheiro nos bolsos e viveria a alta velocidade.

Por vezes nos curtos períodos em que não estava sobre efeito do encantamento, o futuro junkie ouvia algumas vozes (sempre pelo seu ouvido direito) que garantiam que a conversa do dealer era perigosa e que este o levaria à ruína. Como é que isso era possível? Quando chegava à hora da diversão o dealer tinha sempre dinheiro para as farras. Ele sabia como fazer as coisas. Com ele havia sempre boa disposição e os seus amigos estavam sempre descansados pois não havia azar que os apoquentasse.

E foi neste clima que as doses de encantamento se foram sucedendo e com o correr do tempo já nem se lembrava da sua vida antes de conhecer o seu dealer, o grande dealer.

No entanto, o seu ouvido direito não deixava de o perturbar. As doses de encantamento começavam a ser insuficientes. O grande dealer, sempre atento aos estados de espírito do seu junkie, repetia ininterruptamente as suas mensagem de entusiasmo e boa disposição. Apesar disso, por vezes irritava-se com tanto alerta, e o junkie suspeitou estar a ser agredido, directamente no seu ouvido direito durante o sono. Desconfiou do dealer e perguntou-lhe se sabia alguma coisa sobre o assunto. Ele logo mostrou que tinha um feitio forte e que não aceitava que desconfiassem do seu optimismo. O junkie logo entendeu que o melhor era não lhe contar mais nada sobre as vozes estranhas.

Um dia o grande dealer juntou muitos amigos e deu uma festa espectacular. Todos estavam entusiasmados e no fim fizeram um brinde. O grande dealer estava inflamadíssimo e encantado consigo próprio. Sem contar com o microfone aberto disse para consigo: Porreiro, pá! A expressão chegou em alto som às colunas de som (compradas a prestações) e a gargalhada foi geral. Todos estavam encantados com ele, e ele adorava ser o centro das atenções.

No entanto, alguns dos amigos do dealer começaram a avisar o junkie que a vida que levada, sem esforço e só com facilidades, era perigosa e que a prazo teria de mudar de trajectória. O dealer quando soube disso juntou, os amigos e o junkie e começou a falar, falar, falar. No final do encontro todos tinham ouvido algumas ideias com que concordavam e outras não. Ninguém notou que, o que ele fazia era apenas dizer uma coisa e o seu contrário para dois públicos em simultâneo, e logo de imediato, dizer o seu contrário e uma coisa de forma a que todos encontravam alguns pontos de ligação. Ninguém notou que todos estavam a ser anulados num jogo de dupla negação.

O encantamento começou a criar habituação e o junkie começou pedir mais coisas além de conversa. O dealer para o acalmar começou a andar com mais notas nos bolsos. Sabia bem que isso funcionava com alguém como o seu protegido, que toda a vida tivera de contar os tostões.

O junkie no entanto começava a ficar cansado de tanto encantamento.

Um dia, os dois encontraram-se numa mesa de café. O dealer estava diferente. Ao contrário do habitual não se mostrava entusiasmado. Disse-lhe que o mundo tinha mudado e que agora não lhe poderia dar mais dinheiro. O junkei tentou saber porquê e, apesar do seu dealer nunca o assumir, entendeu que ele andara a pedir dinheiro emprestado para toda aquela estúrdia e que já ninguém lhe emprestava mais. O dealer tentando justificar-se disse que iria arranjar mais dinheiro, fosse como fosse, desse por onde desse. Nesse momento o junkie, que cada vez mais se sentia deprimido e esmagado pelas vozes que desde o início o tinham avisado do frenesim gastador em que estava a viver, sentiu que as pernas lhe tremiam notou que transpirava abundantemente. O mau estar era geral. Como é que tinha embarcado num conto do vigário?

Perguntou ao dealer se havia alguma forma de ultrapassar aquela situação com dores menos intensas?

O dealer sorriu e disse: Este ano o campeonato mundial da metadona é na África do Sul!!

Ao dizer isto viu que torcia os dedos para que as actuais tormentas virassem boa esperança…

Para que a metadona funcionasse tínhamos de ganhar os jogos!!

Ao fundo ouviam-se vuvuzelas."



publicado por Paulo Sousa às 09:00
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Obrigado Laura,Apenas aqui poderia ter chegado pel...
magnífico texto.Cheguei aqui através do "Delito".
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Se o discurso do sr burlão da ONU fosse de apoio a...
Um título alternativo: "A realidade não é uma cons...
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O Futuro e os seus inimigos

 

de Daniel Innerarity

 

Um livro que aposta numa política do optimismo e da esperança numa ocasião em que diminui a confiança no futuro. Boa parte dos nossos mal-estares e da nossa pouca racionalidade colectiva provém de que as sociedades democráticas não mantêm boas relações com o futuro. Em primeiro lugar, porque todo o sistema político, e a cultura em geral, estão virados apenas para o presente imediato e porque o nosso relacionamento com o futuro colectivo não é de esperança e projecto mas de precaução e improvisação. Este livro procura contribuir para uma nova teoria do tempo social na perspectiva das relações que a sociedade mantém com o seu futuro: de como este é antevisto, decidido e configurado. Para que a acção não seja reacção insignificante e o projecto se não converta em idealismo utópico, é necessária uma política que faça do futuro a sua tarefa fundamental

 


Teorema

 


 

 




 

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O mais completo livro sobre cachimbos, da autoria do jornalista José Manuel Lopes, presidente do Cachimbo Clube de Portugal. Profusamente ilustrada, esta obra a que poderíamos chamar enciclopédica, dá-nos ainda em anexo uma completíssima lista de clubes e associações do mundo inteiro e dos seus sites.


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